Incontinência urinária

Em condições normais, a bexiga relaxada vai armazenando a urina produzida continuamente pelos rins. Quando a bexiga está cheia, temos a perceção de que é necessário urinar, mas a urina ainda pode ser retida durante algum tempo, até estarem reunidas as condições para urinar voluntariamente. Nesta altura, o esfincter uretral (entre a bexiga e a uretra) abre, a bexiga contrai-se e a urina é eliminada. No final, o esfincter fecha novamente.

Sempre que a quantidade de líquidos ingerida por dia é a adequada (cerca de 2 litros, incluindo a água presentes nos alimentos) é normal ter de urinar a cada 3 a 4 horas e, nas pessoas mais velhas, urinar também uma vez durante a noite.

Na incontinência urinária ou perda acidental de urina, o mecanismo normal de armazenamento de urina na bexiga e expulsão voluntária quando esta está cheia está alterado. A incontinência urinária interfere com o dia-a-dia e pode chegar a ser determinante de escolhas pessoais ou profissionais. É mais comum nas mulheres, nos adultos afeta em média uma em duas mulheres e um em quatro homens.

Há três tipos de incontinência urinária:

  • Incontinência urinária de stress ou de esforço, em que há perdas de urina com o riso, espirros, tosse, corrida, ou qualquer ato que envolva um aumento da pressão abdominal. Deve-se ao enfraquecimento do esfincter uretral ou a uma posição anormal da uretra que impede o bom funcionamento. É comum nas mulheres, especialmente nas que tiveram partos vaginais e também depois da menopausa.

  • Bexiga hiperativa ou urgência urinária, caracterizada por uma vontade repentina e incontrolável de urinar que pode resultar em perdas urinárias. Está associada a alterações da comunicação nervosa entre a bexiga e o cérebro. A bexiga contrai-se excessivamente e com mais frequência que o normal e o aumento da pressão dentro da bexiga, originada pela contração, provoca a abertura do esfincter uretral e as perdas de urina. Estão identificadas também algumas situações que podem desencadear urgência urinária, por exemplo o frio, água a correr, ou lavar as mãos com água fria.

  • Incontinência urinária mista, em que tanto há necessidade urgente de urinar como as perdas características da incontinência de stress.

Causas e diagnóstico

A incontinência urinária não é uma doença, é um sintoma que pode ocorrer em várias doenças, por exemplo infeções urinárias, obstipação, toma de alguns medicamentos, doenças como a diabetes, acidente vascular cerebral ou esclerose múltipla, partos vaginais e menopausa nas mulheres, doenças da próstata no homem. Devem ser procurados cuidados médicos sempre que estejam presentes sintomas de incontinência urinária, para diagnosticar a sua causa, quando esta é desconhecida, e para definir o melhor tratamento.

A história detalhada da doença, o exame físico e, quando necessário, exames de diagnóstico adicionais, permitem ao médico definir o problema e escolher a melhor abordagem de tratamento. Entre as questões importantes cuja resposta é preciso conhecer estão:

  • Em que circunstâncias ocorrem as perdas de urina, como se iniciaram, como evoluíram e há quanto tempo acontecem, que outros sintomas estão presentes, qual é a implicação na qualidade de vida,

  • Hábitos de ingestão de líquidos, incluindo o tipo de líquidos e volume diário,

  • Hábitos intestinais,

  • Medicação habitual,

  • História de cirurgias da cavidade abdominal,

  • Nas mulheres, história de gravidez e tipos de parto, idade de menopausa,

  • Nos homens história de doenças da próstata e seu tratamento.

Fazer um diário miccional, ou seja, durante alguns dias registar as quantidades de líquidos bebidas, as horas e volume de urina, e eventuais perdas involuntárias, pode ser útil para o diagnóstico.

Tratamento da incontinência urinária

Na maioria dos casos a incontinência urinária tem tratamento. O controlo do peso corporal e alterações de estilo de vida resolvem com frequência problemas de incontinência urinária. A urgência urinária também pode ser tratada com medicamentos. Há ainda diversos procedimentos cirúrgicos e de estimulação nervosa, para o tratamento da incontinência de stress e da bexiga hiperativa, respetivamente.

Controlo do peso e alterações do estilo de vida

A perda de peso nas pessoas com excesso de peso ajuda frequentemente a reduzir a perdas de urina. A quantidade de líquidos ingerida diariamente deve ser controlada, seja quando é excessiva seja quando é deficitária. Beber poucos líquidos está relacionado com uma maior concentração da urina que pode provocar irritação da bexiga. Pode também ser vantajoso beber pequenas quantidades ao longo do dia e não volumes grandes e menos frequentes. Eliminar bebidas ou alimentos que agravem os sintomas, por exemplo o álcool, cafeína, comida picante é também uma medida que pode ser necessário implementar.

A obstipação pode agravar a incontinência urinária. A água e a fibra alimentar ajudam a melhorar a obstipação e quando não resultam existem outras formas de tratamento.

Estabelecer horários para urinar tem como objetivo treinar a bexiga para que esta consiga reter a urina cada vez durante mais tempo. Por exemplo, primeiro urinar de hora a hora, mesmo que não haja vontade. Se houver vontade antes do horário, aguardar o mais possível contraindo os músculos. Depois de ser possível cumprir um horário, aumentar progressivamente o intervalo de tempo, 10 ou 15 minutos de cada vez.

Fisioterapia

A reabilitação do pavimento pélvico, usada tanto nas mulheres como nos homens, inclui várias técnicas, por exemplo, biofeedback, eletroestimulação e exercícios de fortalecimento muscular.

Estes exercícios fortalecem o esfincter uretral e os músculos do pavimento pélvico. O ensino dos exercícios de contração e relaxamento deve ser feito em medicina física e de reabilitação. Uma vez aprendidos podem ser realizados em casa regularmente. Atualmente há, para as mulheres, dispositivos que são ligados a aplicações para telemóveis e permitem monitorizar a realização dos exercícios de fortalecimento do pavimento pélvico. Estes exercícios são úteis tanto na incontinência urinária de stress como na urgência urinária.

Medicamentos

Os medicamentos que podem ser usados no tratamento da urgência urinária ou bexiga hiperativa e ajudam o relaxamento da bexiga. A incontinência urinária de stress ou de esforço não é tratada com medicamentos.

Nas mulheres em menopausa, a aplicação local de estrogéneos pode ajudar a aliviar os sintomas de incontinência urinária a a secura vaginal.

Tratamento da incontinência urinária de stress ou esforço

Há diversas técnicas cirúrgicas para tratamento deste tipo de incontinência em que o problema está relacionado com o esfincter uretral ou com a uretra.

Sling ou fita suburetral: É usada uma fita ou rede para reposicionar a uretra e para que o esfíncter uretral passe a funcionar corretamente quando há ações que provocam um aumento da pressão abdominal. Pode ser feito em mulheres e em homens, sob anestesia epidural e sem necessidade de internamento. A recuperação é rápida e a taxa de sucesso é elevada, cerca de 95%. Nas mulheres é feito por via vaginal e nos homens através de uma incisão no períneo.

Colpossuspensão: A fixação do colo da bexiga ao osso púbico e a sua suspensão consequente é uma técnica usada nas mulheres. É feita por via abdominal, geralmente por laparoscopia. É mais demorada e a recuperação não é tão rápida como a de um sling.

Aplicação de agentes formadores de volume na uretra: Estes produtos são aplicados no exterior ou interior da uretra para diminuir o seu calibre e ajudar a função do esfincter uretral. São realizados nas mulheres e podem ser uma opção em casos de incontinência ligeira.

Colocação de um esfincter urinário artificial: Esta é uma opção mais comum nos homens, mas também pode ser usada nas mulheres. Trata-se de um dispositivo que é colocado a rodear a uretra para desempenhar as funções do esfincter uretral. A fecho e a abertura deste esfincter artificial são feitos, respetivamente, enchendo-o com um líquido ou envaziando-o, ação que é conseguida pelo próprio usando uma bomba. Esta bomba fica alojada no escroto nos homens e nos lábios vaginais nas mulheres.

Tratamento da bexiga hiperativa

Toxina botulínica: A administração de toxina botulínica para tratamento da bexiga hiperativa ou neurogénica é feita diretamente na parede bexiga através de cistoscopia por via uretral. A toxina botulínica provoca o relaxamento do músculo. Este tratamento tem uma eficácia de cerca de 6-9 meses e deve repetido regularmente. É feito em consulta, sem necessidade de internamento.

Estimulação nervosa ou neuromodulação: Este tratamento com estímulos elétricos ajuda a controlar os impulsos nervosos e melhora a comunicação entre o cérebro e a bexiga, que deixa de se contrair repetidamente. Há dois tratamentos deste tipo:

  • A estimulação percutânea do nervo tibial usa um elétrodo removível colocado junto da anca e um estimulador externo. Desta forma são enviados estímulos para controlar a função da bexiga. Este tratamento inclui inicialmente sessões semanais, seguindo-se posteriormente sessões mensais para manter a eficácia do tratamento.

  • A neuromodulação sagrada envolve a implantação de um dispositivo de tipo pacemaker na bexiga para controlar os estímulos enviados ao cérebro e, assim, diminuir a contração da bexiga. Este tratamento envolve um teste inicial com um eletrodo controlado pelo doente para verificar o sucesso do tratamento. Se os sintomas forem bem controlados, na segunda fase é colocado o pacemaker definitivo, que faz uma estimulação contínua e regula autonomamente os impulsos nervosos.

Cirurgia de reconstrução da bexiga e derivação urinária: Estas cirurgias são usadas apenas em casos complexos e que não podem ser solucionados de outra forma. Na reconstrução da bexiga é construída uma nova bexiga, de maior volume, capaz de armazenar mais urina. Na derivação urinária é construído um novo trajeto para eliminar a urina e normalmente implica um estoma e o uso de um saco coletor externo.